o sangue do filho


 

1.

Se o cinema é a música da luz, os filmes de John Woo são música do fogo. Em No Coração Do Perigo (1984), Woo já era um maestro do caos. Apesar de ainda não controlar cenas de destruição em massa com a sua expressiva elegância tardia, ela já se fazia presente na precisão dos blocos de enfrentamento. Ao invés de um plano que se expande pelos espaços laterais ou frontais, as destruições se restringem a quadros determinados, que possuem uma maior interdependência em relação à composição total. Ou seja, ao contrário de Fervura Máxima (1992), o corte não serve como aprofundamento de uma mesma imagem que se expande, serve como divisor de linhas de tiro paralelas que se confundem num mesmo ambiente.

E o ambiente é o desafio. Enquanto os inimigos se aproximam, as balas passando raspando, há de se encontrar algum jeito de sentir as vibrações caóticas, o furor da sobrevivência que acompanha a quem acompanhamos. E aí está o filme.

2.

Como em Bresson, façamos de trilha musical os sons que compõe a natureza da imagem composta. Logo na primeira grande cena de ação que o grupo de mercenários protagoniza, a faixa de som se configura em complexidade: da arma automática para a explosão, vamos do incessante barulho das cápsulas que se despejam para o estrondo volumoso da bomba. Estamos acompanhando os ruídos ríspidos da bala, que surgem e somem na mesma rapidez, entrecortado por destruições maiores, graves profundos que passam por trás das linhas de som.

Na correria, pisadas no chão acabam por somar ao microcosmo sonoro da guerra, irrompido por um lança-chamas que entra para cessar as armas de maior alcance e borbulhar em um fogo rico de sonoridade. Do fogo, seguimos para os berros. Os capangas do vilão, vítimas do lança-chamas, gritam em agonia enquanto são carbonizados. Seus gritos se aproximam em tom e fecham a sequência. Uma canção bruta, de uma melodia baseada em rompimentos e irregularidades, sempre pronta para percepções detalhistas de um ambiente sonoro preenchido por pequenas e grandes rupturas violentas.

A violência sonora de No Coração Do Perigo é paciente. O silêncio é valorizado porque é só através do silêncio que faz sentido registrar uma explosão, é preciso abster dos temas heroicos para que o sofrimento de nossos heróis seja vivido com mais justiça. Como o personagem que surge lá pela metade, sempre vestindo um colete recheado de bombas, temos toda a noção de que os explosivos estão presentes e nos ameaçam a cada instante. Aguardamos ansiosamente o seu estrondo.

3.

No centro dramatúrgico está o conteúdo explosivo. O grupo de mercenários, que se relaciona como uma família em férias, carrega o peso de uma pequena criança inocente em sua formação. O pai da criança, líder da equipe, parece só estar com seu filho nos braços para que percorra sobre ele todo tipo de perigo que os cerca. É o refém perfeito do martírio, o infante em apuros que não consegue escapar de sua vivência como filho do herói armado e implacável.

Estão lá, então, pai e filho, em uma selva prestes a pegar fogo: é assim que sua sobrevivência é firmada. Quanto pior a situação, quanto mais incontornável se torna o próximo obstáculo, mais eles se aproximam da imortalidade desejada ao habitar um local onde cada passo é um risco. Portanto, quando Woo coloca a criança para ser socorrida em um círculo flamejante, ou quando dispõe seu protagonista à crueldade do inimigo, não é a aproximação com a morte que estremece sua obra, mas a incapacidade dela de agir sobre seu herói. O resto do grupo pode acabar morto por um tiro cruzado, por um breve momento fatal, mas ao pai que carrega o filho pelo território de guerra é oferecido um corpo fechado.

O filho, inocente e incapaz, intocado pelo horror mas cercado por ele, é a mais importante liga entre algum senso de possibilidade de superação e a realidade destrutiva do presente. Descobre-se a real missão do pai: conseguir suportar a dor necessária para que os limites ainda sejam suficientes, para que seu filho não tenha que aguentar a realidade.

Incapaz de morrer, resta aguardar que a dor acabe. O pai consegue levar o filho até o fim da jornada pelo inferno, mesmo que tenha sacrificado toda a penetrabilidade de sua carne para dar o passo seguinte rumo ao imortal. Mas não há transcendência, apenas a realização de que é possível girar em torno da morte, se movimentar através do fogo, e ainda sair vivo. Basta ter, aos seus cuidados, uma outra criatura tão inocente que mereça um passe livre por uma terra condenada.






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